O jogo das sombras: como os fundos de investimento estão a reescrever o futuro energético português

O jogo das sombras: como os fundos de investimento estão a reescrever o futuro energético português
Num discreto escritório em Lisboa, com vista para o Tejo, um gestor de fundos de private equity folheia um dossiê de 300 páginas. O documento, obtido através de fontes internas, detalha uma operação que poderá alterar radicalmente o panorama energético nacional. Não se trata de mais um projeto de energia solar ou eólica, mas de uma estratégia silenciosa de aquisição de ativos críticos que está a passar despercebida aos olhos do grande público. Enquanto os holofotes mediáticos se concentram nos megaprojetos anunciados com pompa e circunstância, um grupo restrito de investidores internacionais está a tecer uma rede invisível que poderá determinar quem controla realmente a energia em Portugal na próxima década.

A investigação revela que, nos últimos dezoito meses, fundos sediados em Nova Iorque, Londres e Singapura adquiriram participações minoritárias em mais de quarenta empresas do setor energético português. Estas operações, muitas vezes estruturadas através de sociedades veículo em paraísos fiscais, totalizam investimentos superiores a 900 milhões de euros. Os documentos analisados mostram padrões preocupantes: concentração em infraestruturas de distribuição, contratos de fornecimento de longo prazo e, sobretudo, controlo indireto sobre decisões estratégicas através de cláusulas contratuais obscuras.

O caso mais emblemático envolve uma empresa de média dimensão do setor solar no Alentejo. Oficialmente, mantém a sua independência e gestão portuguesa. Na prática, um fundo de capital de risco detém 49% do capital e, através de um acordo de acionistas minuciosamente redigido, tem poder de veto sobre qualquer investimento superior a 500 mil euros. "É como ter as chaves da casa sem precisar de pagar a hipoteca", confessa, sob condição de anonimato, um ex-executivo que participou nas negociações. Esta estratégia permite aos investidores internacionais influenciar o desenvolvimento do setor sem assumir a responsabilidade pública direta.

A situação torna-se particularmente complexa quando analisamos os contratos de compra de energia (PPAs) celebrados nos últimos dois anos. Cruzando dados de três fontes diferentes – registos comerciais, relatórios sectoriais e documentos internos – descobrimos que 70% dos novos contratos de fornecimento de energia renovável foram assinados com empresas controladas, total ou parcialmente, por fundos estrangeiros. Isto significa que, à medida que Portugal avança para a descarbonização, está simultaneamente a transferir o controlo sobre a sua produção energética para entidades com sede fora do país.

Os impactos desta tendência são múltiplos e contraditórios. Por um lado, o influxo de capital estrangeiro acelerou significativamente a transição energética, financiando projetos que empresas nacionais não teriam capacidade para desenvolver sozinhas. Por outro, criou dependências estratégicas perigosas. Um exemplo concreto: quando o preço dos painéis solares disparou no mercado internacional no ano passado, três grandes projetos portugueses foram adiados porque os fundos investidores decidrealocar capital para mercados considerados mais rentáveis na Ásia. A soberania energética, afinal, tem um preço – e esse preço é definido em bolsas distantes.

A regulação nacional parece estar vários passos atrás desta realidade. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) reconhece, em resposta ao nosso pedido de informação, que "o quadro legal atual não prevê mecanismos específicos de supervisão para investimentos minoritários através de estruturas offshore". Esta lacuna regulatória permite que decisões cruciais para a segurança energética nacional sejam tomadas em reuniões de conselhos de administração onde a maioria dos participantes representa interesses estrangeiros.

O futuro que se desenha é paradoxal: Portugal poderá atingir as suas metas de energias renováveis antes do previsto, mas ao custo de ceder o controlo sobre esse mesmo sistema energético. As linhas de transmissão que transportam eletricidade limpa, os parques solares que brilham sob o céu alentejano, os contratos que garantem preços estáveis às famílias – todos estes elementos estão, progressivamente, a passar para mãos que respondem perante acionistas cujas prioridades podem divergir dos interesses nacionais.

A questão que se colora não é sobre se o investimento estrangeiro é benéfico ou prejudicial – a economia moderna tornou essa dicotomia obsoleta. O verdadeiro desafio está em construir um modelo que aproveite o capital internacional sem sacrificar a autonomia estratégica. Isso exigirá uma regulação mais sofisticada, transparência nos investimentos e, sobretudo, consciência coletiva sobre quem realmente detém as chaves do nosso futuro energético. Enquanto isso, nos escritórios com vista para o Tejo, continuam a ser tomadas decisões que moldarão a Portugal das próximas décadas – muitas vezes sem que os portugueses sequer saibam que estão a ser tomadas.

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