O som do silêncio: como a perda auditiva invisível está a mudar vidas em Portugal

O som do silêncio: como a perda auditiva invisível está a mudar vidas em Portugal
Num café de Lisboa, um homem de 65 anos pede ao empregado que repita a pergunta pela terceira vez. Os dedos apertam a chávena, os olhos fixam-se no movimento dos lábios. À sua volta, o burburino das conversas, o tilintar das chávenas, o ranger da porta - tudo se funde num ruído indistinto que há anos deixou de fazer sentido. Esta cena, que poderia ser retirada de qualquer drama social, repete-se diariamente em milhares de estabelecimentos por todo o país. Mas não estamos perante um problema isolado: estamos perante uma epidemia silenciosa que a sociedade portuguesa teima em ignorar.

A perda auditiva não chega com estrondo. Chega devagar, como a maré que vai recuando da praia, levando consigo pedaços do mundo sonoro que antes nos rodeava. Primeiro são os agudos que começam a falhar - o canto dos pássaros na primavera, o riso das crianças no parque. Depois, as conversas em ambientes ruidosos tornam-se labirintos sonoros onde cada palavra precisa de ser desenterrada. Por fim, chega o isolamento: as reuniões familiares transformam-se em espetáculos mudos, os jantares com amigos em exercícios de leitura labial.

O que poucos sabem é que esta deterioração auditiva começa muito antes do que imaginamos. Um estudo recente da Universidade do Porto revelou que 40% dos portugueses entre os 30 e os 40 anos já apresentam algum grau de perda auditiva, resultado da exposição constante a ambientes ruidosos - desde o trânsito caótico das cidades até aos headphones com volume excessivo. A ironia é cruel: numa sociedade cada vez mais barulhenta, estamos a ficar progressivamente mais surdos.

Mas há outra dimensão desta crise que raramente é discutida: o impacto psicológico. A perda auditiva não é apenas uma questão física - é uma ferida na identidade. "Deixei de me reconhecer", confessa Maria, 58 anos, professora reformada. "Sempre fui a pessoa que animava as festas, que contava histórias, que ouvia os segredos dos outros. Agora, sou a senhora que pede para repetirem tudo e que, muitas vezes, prefere ficar em casa." O seu testemunho não é único. A depressão, a ansiedade social e o declínio cognitivo são companheiros frequentes da perda auditiva não tratada.

A tecnologia, porém, está a reescrever esta narrativa. Os aparelhos auditivos modernos já pouco têm a ver com aqueles dispositivos volumosos que os nossos avós usavam. Hoje, são minúsculos computadores que não apenas amplificam o som, mas que o processam inteligentemente - conseguem isolar a voz de quem está à nossa frente num restaurante barulhento, conectar-se diretamente ao telemóvel, e até traduzir línguas em tempo real. "É como ter superpoderes auditivos", brinca João, 45 anos, que usa aparelhos há dois anos. "Recuperei não apenas a audição, mas a confiança para viver a vida plenamente."

No entanto, existe um abismo entre o que a tecnologia pode oferecer e o que os portugueses realmente usam. Estima-se que apenas 20% das pessoas que precisam de aparelhos auditivos os utilizam. Os motivos são complexos: desde o estigma social ("coisa de velho") até aos custos proibitivos, passando pela falta de informação sobre as soluções disponíveis. O Sistema Nacional de Saúde cobre apenas casos muito específicos, deixando a maioria dos portugueses dependente de soluções privadas que podem custar mais de 2.000 euros por ouvido.

Esta realidade está a criar uma nova forma de desigualdade social: a desigualdade auditiva. Enquanto as classes mais favorecidas podem aceder à tecnologia mais avançada, grande parte da população portuguesa vive num mundo progressivamente mais silencioso e isolado. As consequências vão além do individual: afetam a produtividade no trabalho, a qualidade das relações familiares, e até a segurança pública (quantos acidentes acontecem porque alguém não ouviu um aviso?).

Há, no entanto, sinais de mudança. Movimentos como a "Semana da Audição" estão a quebrar tabus e a levar informação às escolas e locais de trabalho. Empresas portuguesas estão a desenvolver tecnologia acessível, com modelos básicos a partir de 300 euros. E, lentamente, a narrativa está a mudar: os aparelhos auditivos deixam de ser vistos como símbolo de decrepitude para serem entendidos como ferramentas de empoderamento, tão normais como os óculos.

O futuro da audição em Portugal dependerá de como enfrentarmos este desafio agora. Precisamos de mais rastreios auditivos regulares, de mais educação sobre proteção auditiva desde a infância, e de políticas públicas que tornem as soluções auditivas acessíveis a todos. Porque o som não é apenas um fenômeno físico - é a cola que une as nossas experiências, as nossas memórias, a nossa humanidade. Recuperá-lo não é um luxo: é um direito fundamental.

Na próxima vez que estiver num espaço público, pare por um momento e escute. O que ouve? O riso de uma criança, a melodia distante de um violino de rua, o sussurro das folhas ao vento? Agora imagine perder esses sons, pedaço a pedaço, até que o mundo se torne um lugar mais plano, mais silencioso, mais solitário. Esta é a realidade de meio milhão de portugueses. Mas não tem de ser permanente. A revolução auditiva já começou - resta-nos juntar-nos a ela.

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