Há uma revolução silenciosa a acontecer nos escritórios das seguradoras portuguesas. Enquanto os clientes continuam a pagar as suas apólices e a reclamar dos preços, as empresas do sector estão a transformar-se digitalmente de forma radical. A inteligência artificial já não é ficção científica nos corredores da Fidelidade, da Ageas ou da Allianz. Está a ser usada para calcular riscos com uma precisão que faria corar os melhores actuários da velha guarda.
A transformação digital não se limita aos processos internos. As aplicações móveis tornaram-se a nova fronteira do relacionamento com o cliente. Já é possível fazer uma reclamação de automóvel através do telemóvel, com reconhecimento de imagem a avaliar os danos e chatbots a guiar todo o processo. O que antes demorava semanas agora resolve-se em horas. Mas esta conveniência tem um preço: os dados dos clientes tornaram-se a nova moeda de troca no mundo dos seguros.
Os seguros de saúde estão na vanguarda desta mudança. As apólices começam a incluir dispositivos wearables que monitorizam a actividade física, os hábitos de sono e até os padrões alimentares. Quem se exercita regularmente e mantém um estilo de vida saudável pode ver o prémio do seguro reduzir significativamente. É o conceito de 'seguro comportamental' a ganhar forma em Portugal, onde o prémio reflecte directamente as escolhas de vida de cada pessoa.
No segmento automóvel, a telemetria está a revolucionar tudo. Os seguros pay-how-you-drive, que calculam o prémio com base na forma como se conduz, já não são uma novidade. Mas a tecnologia evoluiu: os sistemas mais avançados analisam a suavidade das acelerações e travagens, os horários de circulação, até a forma como se fazem as curvas. Os condutores mais cuidadosos estão a ser recompensados com descontos que chegam aos 30%.
As insurtechs – as startups do sector segurador – estão a desafiar as gigantes tradicionais. Empresas como a Bdeo, portuguesa e com operações em vários países, desenvolveram tecnologia que permite avaliar danos de automóveis através de vídeo. O cliente grava o estrago com o telemóvel e em minutos recebe uma avaliação. É um processo que elimina peritos, reduz custos e acelera drasticamente as indemnizações.
A cibersegurança tornou-se uma área de crescimento explosivo. Com o aumento do teletrabalho e a digitalização das empresas, os seguros contra ciberataques estão entre os produtos com maior crescimento no mercado português. As PME, antes pouco preocupadas com esta ameaça, estão agora a proteger-se contra ransomware e violações de dados. As seguradoras respondem com serviços que incluem não apenas cobertura financeira, mas também apoio técnico especializado em caso de ataque.
A sustentabilidade entrou definitivamente no vocabulário das seguradoras. As empresas começam a oferecer condições especiais para veículos eléctricos, habitações com certificação energética e negócios que adoptam práticas ambientais. A Ageas Portugal, por exemplo, já tem produtos que recompensam clientes com veículos menos poluentes. É uma mudança que reflecte tanto preocupações ambientais como o cálculo de risco: carros eléctricos têm menos peças móveis e, portanto, menor probabilidade de avaria.
Os seguros paramétricos estão a ganhar terreno em sectores como a agricultura e o turismo. Diferente dos seguros tradicionais, que pagam com base em perdas comprovadas, o seguro paramétrico activa-se automaticamente quando ocorre um evento específico – como temperatura acima de certo limiar durante um número determinado de dias. Para um agricultor, significa receber automaticamente se houver uma onda de calor que destrua as culturas, sem necessidade de longos processos de reclamação.
A personalização atingiu níveis inimagináveis há uma década. As seguradoras usam algoritmos que analisam milhares de variáveis para criar produtos quase sob medida. Dois vizinhos no mesmo prédio podem pagar valores diferentes pelo seguro multirriscos habitacional, baseado no seu perfil de consumo, hábitos e até no histórico de reclamações. É a era do 'seguro para um', onde as apólices deixam de ser produtos standard para se tornarem soluções individuais.
O grande desafio que se coloca às seguradoras é o equilíbrio entre inovação e regulação. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) tem de acompanhar esta evolução rápida, garantindo que a protecção dos consumidores não fica para trás face ao avanço tecnológico. As questões de privacidade de dados são particularmente sensíveis, especialmente quando falamos de informações de saúde ou hábitos de condução.
O futuro aponta para seguros cada vez mais integrados no dia-a-dia. Os automóveis autónomos trarão novos modelos de responsabilidade civil. As casas inteligentes permitirão seguros que previnem sinistros em vez de apenas os indemnizar. E a internet das coisas criará um ecossistema onde quase todos os aspectos da vida poderão ser segurados de forma dinâmica e personalizada.
Para o consumidor português, esta transformação significa mais opções, preços mais ajustados ao perfil individual e processos mais simples. Mas exige também maior literacia financeira e digital. Compreender como funcionam estes novos produtos, que dados estão a ser recolhidos e como são usados torna-se essencial para fazer escolhas informadas no mundo dos seguros do século XXI.
O seguro que ninguém te contou: como as seguradoras portuguesas estão a reinventar-se na era digital