Seguros em Portugal: o que os jornais não contam sobre o mercado que movimenta milhares de milhões

Seguros em Portugal: o que os jornais não contam sobre o mercado que movimenta milhares de milhões
Num país onde o seguro automóvel é obrigatório e onde cada vez mais portugueses protegem a casa e a saúde através de apólices, o mercado segurador português movimenta anualmente mais de 10 mil milhões de euros. Mas por detrás dos números frios, há histórias que raramente chegam às primeiras páginas. Investigámos durante semanas e descobrimos um ecossistema em transformação, onde tradição e tecnologia se cruzam de formas surpreendentes.

Os dados mais recentes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) revelam que, em 2023, os prémios diretos atingiram os 10,3 mil milhões de euros, um crescimento de 4,2% face ao ano anterior. O seguro de saúde lidera esta expansão, com um aumento de 7,5%, seguido pelos ramos automóvel e multirriscos habitacionais. Mas estes números escondem uma realidade mais complexa: enquanto as grandes cidades apresentam taxas de penetração superiores a 80%, no interior do país muitos portugueses continuam desprotegidos.

A digitalização está a revolucionar o sector de forma irreversível. As insurtechs – startups especializadas em seguros – estão a desafiar as seguradoras tradicionais com modelos baseados em inteligência artificial e análise de dados em tempo real. Em Lisboa e no Porto, já é possível contratar seguros através de aplicações móveis em menos de cinco minutos, sem papelada e com preços personalizados segundo os hábitos de cada cliente. Esta transformação está a forçar as seguradoras históricas a repensarem os seus modelos de negócio.

O fenómeno das alterações climáticas está a criar novos desafios e oportunidades. As seguradoras portuguesas começam a desenvolver produtos específicos para proteger contra fenómenos meteorológicos extremos, cada vez mais frequentes no nosso território. Desde seguros agrícolas que cobrem perdas por seca até produtos para proteger infraestruturas costeiras, o mercado está a adaptar-se a um planeta em mudança. Esta evolução representa tanto um risco como uma oportunidade de crescimento para o sector.

A literacia financeira continua a ser um obstáculo significativo. Muitos portugueses ainda não compreendem completamente as coberturas que contratam, o que leva a situações de sub ou sobreproteção. As seguradoras estão a investir em programas educativos, mas especialistas defendem que é necessário um esforço conjunto com escolas e instituições públicas. A falta de compreensão sobre produtos financeiros complexos, como os seguros de vida unit-linked, é particularmente preocupante.

A regulação europeia está a moldar o futuro do sector. A diretiva Solvency II, implementada em 2016, estabeleceu requisitos de capital mais rigorosos para as seguradoras, aumentando a estabilidade do sistema mas também os custos operacionais. Agora, Bruxelas prepara novas regras para os seguros sustentáveis, que obrigarão as empresas a considerar fatores ambientais, sociais e de governação nas suas decisões de subscrição. Estas mudanças terão impacto direto nos preços e na oferta disponível para os consumidores portugueses.

Os seguros de saúde estão a tornar-se cada vez mais personalizados. Com o aumento da esperança de vida e o crescimento das doenças crónicas, as seguradoras estão a desenvolver produtos adaptados a perfis específicos de saúde. Desde apólices que recompensam estilos de vida saudáveis até coberturas especializadas para doenças específicas, a personalização é a nova fronteira deste mercado. Esta tendência levanta questões importantes sobre privacidade de dados e discriminação por estado de saúde.

O mercado português apresenta características únicas no contexto europeu. Com uma das populações mais envelhecidas da União Europeia, a procura por seguros de vida e produtos de reforma é particularmente forte. Ao mesmo tempo, a elevada taxa de propriedade habitacional – superior à média europeia – sustenta um mercado robusto de seguros multirriscos para a casa. Estas particularidades nacionais criam oportunidades específicas para as seguradoras que operam em Portugal.

A concorrência está a aumentar de forma significativa. Além das insurtechs, os bancos continuam a ser players importantes através dos seus canais de distribuição. As comparações online de seguros ganharam popularidade durante a pandemia, pressionando os preços para baixo. Esta competição intensa beneficia os consumidores, mas também coloca pressão sobre a rentabilidade das seguradoras, forçando-as a inovar constantemente.

O futuro do sector dependerá da capacidade de equilibrar inovação com proteção ao consumidor. À medida que as seguradoras adoptam tecnologias como blockchain para smart contracts ou telemetria para seguros automóveis, será crucial garantir que os consumidores não ficam para trás. A supervisão regulatória terá de evoluir ao mesmo ritmo que a inovação tecnológica, protegendo os interesses dos portugueses sem estrangular a criatividade do mercado.

Num país que enfrenta desafios demográficos, climáticos e económicos, os seguros assumem um papel cada vez mais vital na proteção das famílias e das empresas. A forma como este mercado evoluir nos próximos anos determinará não apenas a saúde financeira do sector, mas também a resiliência da sociedade portuguesa face às incertezas do futuro.

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