Seguros em Portugal: o que os jornais não contam sobre os buracos na rede de proteção

Seguros em Portugal: o que os jornais não contam sobre os buracos na rede de proteção
Nas redações dos principais jornais portugueses, as notícias sobre seguros seguem um padrão previsível: subidas de prémios, novas coberturas digitais, alertas sobre fraudes. Mas há uma história mais profunda que raramente aparece nas primeiras páginas – uma rede de proteção com buracos que deixam milhares de portugueses vulneráveis quando mais precisam.

A verdade inconveniente que emerge das estatísticas do setor é que 34% dos sinistros são recusados no primeiro contacto com as seguradoras. Não estamos a falar de tentativas óbvias de fraude, mas de casos onde famílias perderam tudo em incêndios ou empresas enfrentaram prejuízos catastróficos, apenas para descobrir que a sua 'proteção total' tinha exceções minúsculas mas devastadoras nas letras pequenas.

O problema começa na forma como os seguros são vendidos. Nas últimas décadas, o foco mudou da proteção genuína para a otimização de lucros através da segmentação de risco. As seguradoras desenvolveram algoritmos sofisticados que identificam não apenas quem tem maior probabilidade de sofrer um sinistro, mas – mais lucrativo – quem tem menor probabilidade de contestar uma recusa. Os idosos, os menos escolarizados, os imigrantes com dificuldades linguísticas: todos são alvos fáceis para práticas que beiram o predatório.

Nas zonas rurais, a situação é particularmente grave. Um agricultor do Alentejo contou-nos como perdeu 80% da sua colheita de azeitona devido a uma geada atípica. O seguro agrícola que pagara religiosamente durante quinze anos recusou o pagamento, alegando que o fenómeno meteorológico não estava coberto na sua apólice específica. 'Paguei por proteção durante anos, mas quando precisei, descobri que tinha comprado apenas a ilusão de segurança', desabafou.

O setor empresarial não está imune. Pequenas e médias empresas, a espinha dorsal da economia portuguesa, enfrentam armadilhas semelhantes. Um restaurante tradicional no Porto viu-se forçado a fechar após um incêndio na cozinha. O seguro contra incêndios cobria os danos estruturais, mas excluía especificamente a perda de receita durante as obras de reconstrução. Seis meses depois, o negócio familiar de três gerações desapareceu.

As seguradoras defendem-se com o argumento da sustentabilidade. 'Sem exclusões e condições claras, os prémios seriam proibitivos para a maioria dos portugueses', argumenta um diretor do setor que preferiu não ser identificado. Mas os números contam uma história diferente: enquanto as recusas de sinistros aumentaram 18% nos últimos cinco anos, os lucros das principais seguradoras portuguesas cresceram consistentemente acima da inflação.

A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) tem poderes limitados para intervir. Pode multar práticas abusivas, mas o processo é lento e as multas raramente ultrapassam os 50.000 euros – quantias insignificantes para empresas que faturam centenas de milhões. Além disso, a ASF não tem autoridade para obrigar as seguradoras a pagar sinistros específicos, apenas para garantir que as regras do jogo são claras desde o início.

A solução pode estar numa mudança cultural. Em países como a Alemanha e os Países Baixos, os mediadores de seguros independentes têm um papel muito mais ativo na defesa dos clientes. Em Portugal, a maioria dos seguros é vendida através de canais diretos ou de corretores que representam uma única seguradora, criando um conflito de interesses estrutural.

Algumas vozes no setor começam a defender uma abordagem diferente. 'Precisamos de passar de uma cultura de exclusão para uma cultura de proteção genuína', defende Maria Silva, fundadora de uma startup de insurtech que está a revolucionar o setor com apólices transparentes e processos de sinistro simplificados. 'A tecnologia permite-nos ser mais eficientes sem sacrificar a proteção dos clientes.'

Os consumidores também têm um papel a desempenhar. Ler as condições gerais – todas as 40 ou 50 páginas – antes de assinar é essencial. Pedir esclarecimentos por escrito sobre pontos ambíguos pode fazer a diferença entre receber uma indemnização ou enfrentar a ruína financeira. E quando um sinistro é recusado, contestar através dos meios legais disponíveis: a maioria das seguradoras reconsidera quando confrontada com uma contestação fundamentada.

O futuro dos seguros em Portugal está numa encruzilhada. Podemos continuar no caminho atual, onde a proteção é cada vez mais ilusória, ou podemos exigir um setor que cumpra realmente a sua promessa fundamental: proteger as pessoas e as empresas dos imprevistos da vida. A escolha é coletiva, mas começa com a consciência de que o diabo está mesmo nos detalhes – especialmente nas letras pequenas que ninguém lê até ser tarde demais.

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