Seguros em Portugal: o que os media não contam sobre as novas ameaças digitais

Seguros em Portugal: o que os media não contam sobre as novas ameaças digitais
Nos últimos meses, enquanto os principais jornais portugueses se concentravam nas flutuações do mercado e nos escândalos financeiros, uma revolução silenciosa estava a acontecer nos bastidores do setor segurador. As ameaças digitais, que antes pareciam cenários de ficção científica, transformaram-se em riscos reais que as apólices tradicionais não cobrem. Em Portugal, onde apenas 15% das empresas têm seguro contra ciberataques, estamos a construir um castelo de cartas digital.

A investigação revela que os hackers não procuram apenas dados bancários. O novo alvo são os sistemas de controlo industrial, as redes elétricas municipais e até os equipamentos médicos conectados. Em Coimbra, um hospital viu os seus scanners de ressonância magnética serem sequestrados digitalmente durante 72 horas. Em Lisboa, uma pequena fábrica de componentes automóveis perdeu o controlo dos seus robôs de montagem durante um ataque coordenado. Estas histórias não aparecem nas primeiras páginas, mas representam uma mudança de paradigma no conceito de risco.

Os especialistas com quem conversámos, incluindo antigos agentes da Europol e engenheiros de cibersegurança, descrevem um cenário preocupante: as seguradoras portuguesas continuam a vender produtos do século XX para problemas do século XXI. As apólices contra incêndio cobrem os servadores físicos, mas não os dados que neles residem. Os seguros de responsabilidade civil protegem contra acidentes no mundo físico, mas ficam mudos perante um vazamento de dados de clientes.

O mais intrigante é a desconexão entre a perceção pública e a realidade. Enquanto os portugueses se preocupam com o preço dos seguros automóveis (um tema amplamente coberto pela imprensa), as empresas familiares que constituem a espinha dorsal da nossa economia estão vulneráveis. Uma padaria centenária no Porto pode perder 150 anos de receitas secretas num clique. Uma adega no Alentejo pode ver as suas fórmulas de vinho serem copiadas e vendidas no mercado negro digital.

A solução, segundo os inovadores do setor, não passa apenas por novos produtos de seguro. Requer uma mudança cultural. As seguradoras precisam de se transformar de meras pagadoras de sinistros em parceiras de gestão de risco. Em vez de esperar pelo desastre, deveriam oferecer auditorias de segurança regulares, formação aos funcionários e sistemas de deteção precoce. Algumas startups portuguesas já estão a trabalhar neste modelo, usando inteligência artificial para prever ataques antes que aconteçam.

O caso mais revelador surgiu numa entrevista com um administrador de um grande grupo segurador que pediu anonimato. 'Temos medo de lançar produtos contra riscos cibernéticos abrangentes', confessou. 'Não sabemos calcular as probabilidades, não temos dados históricos suficientes, e um único grande ataque poderia falir-nos.' Esta admissão explica porque é que as ofertas no mercado são tão limitadas e caras.

Mas há esperança no horizonte. Em Braga, um consórcio de universidades e empresas está a desenvolver o primeiro modelo de risco cibernético adaptado à realidade portuguesa. Em vez de copiar fórmulas americanas ou alemãs, estão a mapear as vulnerabilidades específicas das nossas infraestruturas, dos nossos padrões de negócio e até da nossa cultura digital. Os primeiros resultados sugerem que os riscos são diferentes - e em alguns casos menores - do que se assumia.

Para os consumidores, a mensagem é clara: o próximo grande sinistro pode não ser um incêndio ou um acidente de viação. Pode ser um ecrã negro no computador da empresa, seguido de um pedido de resgate em bitcoin. As famílias portuguesas que investiram anos a construir os seus negócios precisam de começar a fazer perguntas difíceis aos seus corretores. E os jornalistas económicos precisam de olhar para além dos lucros trimestrais das seguradoras e questionar se elas estão realmente a preparar-nos para o futuro.

O setor segurador português encontra-se numa encruzilhada histórica. Pode continuar a vender apólices que se assemelham cada vez mais a mapas de um mundo que já não existe. Ou pode reinventar-se, abraçar a complexidade digital e tornar-se no escudo que as empresas e famílias portuguesas realmente necessitam. A escolha que fizer agora determinará não apenas o seu futuro, mas a resiliência de toda a economia nacional perante as tempestades digitais que se avizinham.

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