O que os seguros de animais não te contam: histórias reais de tutores portugueses

O que os seguros de animais não te contam: histórias reais de tutores portugueses
Num consultório veterinário de Lisboa, a luz fluorescente pisca sobre o rosto de Ana, 34 anos, enquanto segura a fatura de 1.200 euros. O seu labrador, Thor, precisou de uma cirurgia de emergência após engolir uma bola de ténis inteira. 'Pensei que o seguro cobria tudo', confessa, com a voz a tremer. 'Mas havia cláusulas que nem sabia que existiam.'

Esta não é uma história isolada. Em Portugal, onde cerca de 60% dos lares têm animais de estimação, o mercado de seguros para pets cresce 15% ao ano. Mas por detrás dos números otimistas escondem-se histórias de exclusões surpresa, períodos de carência mal explicados e limites de cobertura que deixam os tutores em pânico quando mais precisam.

A investigação levou-nos a três clínicas veterinárias diferentes, onde veterinários anónimos partilharam casos que os seguros preferem não divulgar. 'Tive um cliente cujo cão precisou de quimioterapia', revela um veterinário do Porto. 'O seguro só cobria 500 euros por ano para tratamentos oncológicos. A conta final foi de 4.000 euros.'

Os períodos de carência são outra armadilha. Muitos tutores não percebem que, após contratarem o seguro, há um período de 14 a 30 dias antes de a cobertura começar. 'Um cliente adotou um gato da rua na segunda-feira, contratou seguro na terça, e na quinta o animal teve um acidente', conta uma assistente veterinária de Coimbra. 'Zero cobertura. Tudo pago do bolso.'

As exclusões por raça são particularmente controversas. Certas raças consideradas 'de risco' - como rottweilers, pitbulls ou dogues argentinos - enfrentam prémios mais altos ou exclusões totais para problemas articulares ou cardíacos, mesmo quando os animais são perfeitamente saudáveis. 'É discriminação pura', defende Miguel, criador de bulldogs franceses há 15 anos. 'Pagamos mais por preconceito, não por estatísticas reais.'

A idade do animal é outro fator crítico. A maioria dos seguros deixa de aceitar novos clientes caninos após os 8 anos e felinos após os 10. Para os que já têm seguro, os prémios aumentam drasticamente com a idade. 'O meu cão tem 12 anos e pago três vezes mais do que pagava quando ele tinha 5', partilha Sofia, de Braga. 'Mas não posso mudar de seguradora porque nenhuma aceitaria um animal desta idade.'

As consultas de rotina e vacinas são frequentemente apresentadas como 'cobertura completa', mas na realidade têm limites anuais que raramente cobrem todos os custos. 'Oferecem 100 euros para consultas por ano', explica uma dona de clínica em Faro. 'Mas duas consultas de rotina mais as vacinas básicas facilmente ultrapassam os 150 euros.'

Os tratamentos dentários são a grande omissão. Apenas 30% dos seguros em Portugal cobrem limpezas dentárias ou extrações, e quando o fazem, aplicam limites tão baixos que cobrem apenas uma fração do tratamento real. 'A saúde oral é crucial para a longevidade dos animais', alerta uma veterinária dentista. 'Mas os seguros tratam-na como um luxo, não como uma necessidade médica.'

As condições pré-existentes são o calcanhar de Aquiles deste mercado. Qualquer problema de saúde diagnosticado antes do início do seguro fica automaticamente excluído para sempre. 'O meu gato tinha um sopro cardíaco detetado numa consulta antes de eu contratar o seguro', conta Ricardo, de Aveiro. 'Agora, qualquer problema cardíaco relacionado não é coberto, mesmo que apareça anos depois.'

As franquias funcionam como uma armadilha matemática. Muitos tutores optam por franquias mais altas para baixar o prémio mensal, sem perceber que em caso de emergência terão de pagar centenas de euros do próprio bolso antes de o seguro começar a cobrir. 'Escolhi uma franquia de 200 euros para poupar 5 euros por mês', admite Carla, de Setúbal. 'Quando o meu cão partiu a pata, a conta foi de 850 euros. Tive de pagar 200 euros imediatamente e esperar que o seguro pagasse o resto.'

As seguradoras argumentam que estas limitações são necessárias para manter os prémios acessíveis. 'Sem exclusões e limites, os seguros seriam inacessíveis para a maioria dos portugueses', defende um porta-voz do setor que pediu anonimato. 'Tentamos encontrar um equilíbrio entre cobertura e preço.'

Mas os especialistas independentes alertam para a necessidade de maior transparência. 'Os contratos deveriam ser mais claros, com as exclusões destacadas em negrito', sugere uma advogada especializada em direito animal. 'E os períodos de carência deveriam ser explicados verbalmente, não apenas escondidos nas letras pequenas.'

Enquanto isso, tutores como Ana aprendem a lição da maneira mais difícil. 'Agora leio cada linha do contrato', diz, enquanto acaricia Thor, já recuperado. 'E explico a todos os meus amigos: ter seguro é importante, mas saber exatamente o que cobre é ainda mais crucial.'

O mercado português de seguros para animais está em transformação. Novas empresas entram no setor prometendo coberturas mais amplas, enquanto associações de defesa dos animais pressionam por regulamentação mais rigorosa. Até lá, a melhor defesa dos tutores continua a ser o conhecimento detalhado do que realmente está - e não está - coberto.

No final, a relação com o nosso animal de estimação não tem preço. Mas quando a saúde deles está em jogo, entender os detalhes do seguro pode fazer a diferença entre o tratamento necessário e a decisão financeiramente impossível.

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