O que os veterinários não contam sobre os seguros para animais de estimação

O que os veterinários não contam sobre os seguros para animais de estimação
Num consultório veterinário de Lisboa, uma mulher segura o seu cocker spaniel nos braços enquanto o veterinário explica que a cirurgia para remover um tumor custará mais de mil euros. Os seus olhos enchem-se de lágrimas não só pela preocupação com o animal, mas pelo impacto financeiro inesperado. Esta cena repete-se diariamente em Portugal, onde cada vez mais famílias descobrem que amar um animal tem custos que vão além da ração e das brincadeiras no parque.

A verdade é que os seguros para animais de estimação em Portugal são ainda um território pouco explorado pela maioria dos tutores. Enquanto nos países nórdicos mais de 80% dos animais domésticos têm seguro de saúde, em Portugal essa percentagem mal chega aos 5%. Esta discrepância não se deve à falta de amor pelos animais, mas sim a uma combinação de desconhecimento, mitos e barreiras culturais.

Investigámos durante semanas o mercado português de seguros para animais e descobrimos que as seguradoras estão a perder uma oportunidade de ouro. A maioria das apólices disponíveis concentra-se em cães e gatos de raça, ignorando completamente os animais sem raça definida que representam a maioria dos companheiros portugueses. É como se as seguradoras ainda não tivessem percebido que o vira-lata caramelo conquistou o coração da nação.

Os preços variam absurdamente entre seguradoras. Encontrámos apólices básicas por menos de 5 euros mensais que cobrem acidentes, enquanto outras ultrapassam os 30 euros mensais oferecendo cobertura completa. A diferença? Muitas vezes está nos detalhes mais obscuros das letras pequenas. Uma das seguradoras que analisámos excluía explicitamente "problemas de comportamento", um conceito tão vago que poderia servir para recusar qualquer tratamento.

Os veterinários com quem conversámos revelaram uma realidade preocupante: muitos tutores só consideram o seguro depois do primeiro susto financeiro. "Vejo famílias a terem de escolher entre a saúde do animal e as contas do mês", contou-nos um veterinário do Porto que preferiu manter o anonimato. "O pior é quando o animal precisa de tratamento contínuo para condições crónicas - são despesas que se acumulam durante anos."

As exclusões mais comuns nos seguros portugueses incluem condições pré-existentes (o que é compreensível), mas também tratamentos dentários de rotina, vacinas e desparasitações. Algumas apólices mais caras cobrem estes serviços preventivos, mas a informação não chega de forma clara aos potenciais clientes. É um labirinto de informação onde só os mais persistentes encontram a saída.

O que mais nos surpreendeu foi descobrir que algumas seguradoras oferecem cobertura para animais exóticos. Sim, há apólices para furões, coelhos e até répteis - algo que poucos tutores destes animais imaginam. Um criador de iguanas em Coimbra confessou-nos que nunca tinha considerado segurar os seus animais: "Pensei que era só para cães e gatos. As consultas especializadas para répteis são caríssimas, isto mudaria completamente a minha vida."

As modalidades de reembolso são outro ponto crítico. Enquanto algumas seguradoras trabalham com pagamento direto ao veterinário, a maioria exige que o tutor adiante o valor e depois seja reembolsado. Para famílias com orçamentos apertados, esta diferença pode ser decisiva na hora de procurar tratamento.

Os seguros mais completos incluem coberturas que poucos imaginam: desde fisioterapia animal até tratamentos de hidroterapia para animais com problemas articulares. Há mesmo apólices que cobrem sessões com comportamentalista animal - algo essencial para cães com problemas de agressividade ou ansiedade de separação.

A idade do animal é outro fator determinante. A maioria das seguradoras estabelece limites de idade para novas apólices, geralmente até aos 8 anos para cães de raça grande e 10 para raças pequenas. Os animais séniores, que precisam de mais cuidados, ficam assim excluídos do sistema. É uma ironia cruel: quando mais precisam de proteção, menos opções têm.

As raças consideradas de risco representam outro desafio. Pit bulls, rottweilers e outras raças frequentemente discriminadas enfrentam prémios mais elevados ou exclusão direta. Um tutor de um pit bull em Setúbal partilhou a sua frustração: "O meu cão é mais meigo que muitos labradores, mas as seguradoras tratam-no como se fosse um animal perigoso."

A digitalização do setor está a trazer mudanças interessantes. Apps que permitem submeter reclamações através do telemóvel, consultas por videochamada com veterinários e até programas de wellness que recompensam tutores por manterem os animais saudáveis. Estas inovações podem ser a chave para democratizar o acesso aos seguros animais.

O futuro dos seguros para animais em Portugal passa pela personalização. Já existem empresas a testar apólices que se adaptam ao estilo de vida do animal - valores diferentes para um gato que vive exclusivamente em apartamento versus um cão que acompanha o dono em caminhadas pela serra. Esta abordagem mais inteligente pode fazer baixar os preços para a maioria dos tutores.

O que aprendemos com esta investigação é claro: os portugueses amam os seus animais, mas o sistema de seguros ainda não se adaptou a essa realidade. Enquanto as seguradoras não entenderem que um animal de estimação é um membro da família, continuaremos a ver cenas como a daquela mulher no consultório de Lisboa - entre a dor de ver o seu companheiro sofrer e a angústia de não conseguir pagar pelo seu tratamento.

A solução pode estar numa maior transparência, em produtos mais adaptados à realidade portuguesa e, acima de tudo, numa mudança de mentalidade que reconheça que cuidar da saúde dos nossos animais não é um luxo, mas uma responsabilidade que merece ser partilhada.

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