Num café de Lisboa, enquanto o seu golden retriever dormia placidamente aos seus pés, Maria partilhou um segredo que fez os outros donos de animais suspenderem as colheres de café: "O Bóbi tem 8 anos e nunca precisei de seguro para animais. Nem sequer o levei ao veterinário além das vacinas obrigatórias". A afirmação, proferida com a naturalidade de quem comenta o tempo, levantou uma questão que ecoa em parques e grupos de WhatsApp por todo o país: será possível ter um animal de estimação saudável sem a rede de segurança de um seguro?
A investigação começa nos números frios. Segundo dados da Associação Portuguesa de Seguradores, apenas 12% dos lares portugueses com animais têm seguro específico para pets. Um número surpreendentemente baixo quando comparado com países como a Suécia (80%) ou o Reino Unido (50%). Mas os números não contam histórias - apenas as pessoas o fazem.
Pedro, técnico veterinário há 15 anos no Hospital Veterinário do Porto, recebe-nos entre consultas. As suas mãos contam histórias de urgências: "Vejo dois tipos de donos. Os que têm seguro e trazem o animal ao mínimo sinal de desconforto, e os que não têm e adiam até ser quase tarde demais. O problema é que não existe um terceiro tipo - o que nunca precisa".
A sala de espera do consultório transforma-se num microcosmo da sociedade portuguesa. Ana, designer gráfica de 32 anos, acaricia o seu gato siamês dentro da transportadora: "Pago 15€ por mês de seguro há três anos. Até agora, só usei para a vacina anual. Às vezes pergunto-me se não estou a deitar dinheiro fora". Do outro lado, Carlos, reformado de 68 anos, espera com o seu cocker spaniel: "O Gaspar já teve duas operações que custaram mais de 2000€. Sem seguro, teria de o dar para adoção".
Mas e os casos como o da Maria do café? Procuramos histórias reais de animais que nunca precisaram de cuidados veterinários além do básico. A busca leva-nos a fóruns online, onde encontramos relatos que parecem lendas urbanas: cães que chegam aos 15 anos sem uma única consulta, gatos que nunca tomaram medicação. A verdade, quando finalmente emerge, é mais complexa do que parece.
"Chama-se viés de sobrevivência", explica Dra. Sofia Mendes, etóloga e investigadora da Universidade de Coimbra. "Só ouvimos as histórias dos que tiveram sorte. Os animais que morreram jovens por falta de cuidados não estão nos cafés a contar a sua experiência". A especialista mostra-nos estudos onde animais sem acompanhamento regular têm, em média, uma esperança de vida 30% menor.
A viagem pela realidade portuguesa continua numa associação de proteção animal no Algarve. Aqui, a diretora Carla mostra-nos as consequências mais duras: "Recebemos em média três animais por mês cujos donos não podiam pagar tratamentos. Muitos chegam tarde demais. O seguro não é um luxo - é uma responsabilidade".
Mas o debate não é apenas financeiro. Encontramos Miguel, treinador canino há 20 anos, que defende uma posição intermédia: "O seguro mais importante é a educação. Um dono informado previne 80% dos acidentes. Conheço cães que nunca foram ao veterinário porque os donos sabiam ler os sinais de alerta".
Nas redes sociais, o tema divide opiniões de forma quase tribal. Grupos de "donos naturais" defendem remédios caseiros e prevenção através da alimentação. Do outro lado, os "defensores da medicina moderna" partilham histórias dramáticas de salvamentos graças a seguros. A verdade, como quase sempre acontece, parece estar no meio.
Voltamos ao café de Lisboa, onde a conversa começou. Maria, a dona do golden retriever que "nunca precisou de veterinário", confessa finalmente: "Bem, houve aquela vez em que comeu um novelo de lã... e aquela alergia de primavera... e quando partiu a unha a correr no jardim...". O mito desfaz-se com um sorriso envergonhado. O Bóbi, afinal, já tinha estado no veterinário quatro vezes - Maria apenas não contava as "pequenas coisas".
O que emerge desta investigação não é uma resposta simples, mas um retrato complexo da relação dos portugueses com os seus animais. Entre o otimismo ingénuo e o pessimismo financeiro, existe uma realidade: os pets envelhecem, acidentes acontecem, e as surpresas não avisam. O seguro pode parecer um custo desnecessário até ao dia em que se torna na única coisa entre o nosso companheiro e o desfecho que não queremos imaginar.
Talvez a verdadeira questão não seja se precisamos de seguro, mas como podemos ser donos mais preparados. Porque no final, como nos diz o veterinário Pedro enquanto se despede: "O melhor seguro é o amor responsável. Mas um plano de saúde ajuda a dormir melhor à noite - tanto ao dono como ao animal".
E assim, entre histórias de sorte e estatísticas de realidade, aprendemos que cuidar de um animal é sempre um ato de fé - mas uma fé que podemos, e devemos, apoiar com planeamento. Porque eles merecem mais do que a nossa esperança - merecem a nossa preparação.
O segredo dos donos de pets que nunca levam o animal ao veterinário: mito ou realidade?